domingo, 16 de janeiro de 2011

Platônico

Tenho acrofobia, por isso não posso acompanhar você por entre as nuvens
Mas trago comigo meu binóculo
E te sigo, e consigo ver-te sorrindo
Ah, minhas tardes se passam leves
Eu, deitado na grama velha do meu quintal, te sigo até perder-te de vista
E então meu sorriso também se perde.
Eu me recolho, e espero.
Até ver-te de novo, voando sobre meu quintal.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Os brutos amam, mas não choram

Maria não chora.
Não chora por quê, Maria?
"Problemas no sistema nervoso."

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Análise de um amor imperfeito

Ontem eu trepei com Pedro. Como sempre, ele não me deu nada. Me disse que, semana passada tinha pensado em mim ao ver que eu havia esquecido uma liga de cabelo na mesa do computador. Não respondi nada. Às vezes fico me perguntando o que me leva a terminar tantas noites na cama de Pedro, e nunca consigo chegar a uma conclusão decente. Ou até chego, mas ela é vergonhosamente impublicável.
Pedro ri com os olhos. É a única coisa dele que ri. Nunca vi Pedro dar uma gargalhada. Seus dentes, nunca vi. Algum dentista da cidade deve ter conhecido. Se é que ele já foi em um algum dia. Não digo isso pelo estado estético, mas pela mania dele de achar que tudo tende a deterioração e é inevitável qualquer esforço.
Pedro é engraçado. Mas não engraçado de um jeito bom. Acho que só eu o acho engraçado do jeito que acho. Ele é um homem esculpido em rocha, ou seria em bosta? Não sei. Só sei que, independente de sua matéria-prima, terminarei na cama dele amanhã, se ele me ligar. Pensando bem, ele nunca me ligou. Ele nunca liga pra ninguém, nem pra nada. Nem pra mãe dele ele deve ligar. Se é que ele tem mãe. O coração de Pedro é de menino criado em orfanato.
Mas eu ligo. Eu sempre ligo. Ligo pra ele dizer que vai estar ocupado e que é melhor deixar para amanhã. Mas eu nunca deixo pra amanhã. Porque eu sei que hoje ele não está ocupado. Assim como eu estou muitíssimo, mas abandono tudo e vou até o apartamento de Pedro, pra encontrá-lo estirado no sofá, fumando maconha e olhando para o teto.
Não sei como Pedro entrou na minha vida. Essa ocasião virou um buraco na minha memória. É engraçado porque me pego pensando nisso, às vezes. É como se meu próprio corpo se esforçasse pra me poupar de um arrependimento pavoroso. Como se evitar passar por tal rua, numa certa hora me livrasse de um destino como esse: Essa vida com Pedro.
Todo Pedro merece ser amado, mas nenhuma mulher que ama um Pedro merece amá-lo. Concluo, na tentativa vã de me convencer a deixá-lo.

domingo, 2 de janeiro de 2011

E agora, Maria?

“Olha ali, olha, tá vendo ali? Ta vendo onde eles tão?”, ela me falou com lágrimas nos olhos, a boca, que guardava apenas um dente, tremia. Os cabelos grisalhos e crespos teimavam em fugir do coque, que outrora fora muito bem transado.

Miúda e magra. Uma Úrsula Buendía da minha realidade. Andando pela casa a reclamar da morte. “Que será de mim?” eis sua dúvida-mãe. Sofre por pavor ao sofrimento.

Angustiosamente me pergunto em que abismo profundo se refugiou minha vó. Em que caverna da mente? Será que anseia em voltar? Será que sua sanidade está presa num lugar cuja chave a loucura engoliu? Quem está insano, afinal?

Eu me encolho num canto do sofá, mastigando essas perguntas sem respostas. Enquanto ela anda pela casa pedindo que não a deixem só.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Buscando santidade


Um mero eu
A enfileirar desejos
A cantar no escuro
Protegido por um muro
De íntegras razões
Quem dera ser
Um ser apaixonado e puro
Um personagem mudo
De um filme francês
E ser de vocês a imagem
Mais doce e inocente
A mais ausente criatura
Do mundo que está
Por algum tempo que, afinal, passou depressa
Como tudo tem de passar
Hoje me sinto como se ter ido fosse
Necessário para voltar
Tanto mais vivo de vida mais vivida
Dividida para lá e para cá.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Cansaço

Andei cansando. Cansando fácil. Cansando de não ter e de tentar. Cansado de ser e não querer continuar sendo. Cansando de cansar.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Enquanto você sonhava

Você acaba de chegar. Põe as chaves da casa e do carro em cima da mesa de jantar e caminha direto para a cozinha. Sempre teve essa mania, de ir direto pra cozinha. Às vezes só acendia a luz, apagava e voltava. Como se quisesse avisar, aos ratos e baratas, que chegou. Eu presto atenção no seu andar por um momento. Sempre o achei bonito. Não sei porque motivo, realmente; mas lembro de sempre ficar observando seu andar pela casa e o achava lindo. Um andar indisposto, cansado e dengoso. Você senta no sofá com um cigarro na boca e uma cerveja na mão. Liga a TV, troca inúmeras vezes de canal, desiste e desliga. Se espalha no sofá e fica olhando para o teto. E eu me entrego a essa imagem, que você sustenta, por longos minutos. Admiro o jeito com que sua perna direita fica pendurada fora do sofá, a forma como batuca na lata de cerveja, enquanto a outra perna segue o ritmo de uma música que toca na sua cabeça. Tenho ciúme porque você pensa na música, mas não pensa em mim. Ou será que pensa enquanto canta a música mentalmente. Fico confusa e enjoada, com vontade de chorar e vomitar.
Olho pra você lenta e longamente antes ir embora. Ao encará-lo de frente, vejo que uma lágrima escorre tímida do seu rosto. Será que pensava em mim realmente? Levo minha mão até seu rosto e ela desliza suavemente sobre ele. Você sente frio, levanta e fecha a cortina da janela. E eu vou desaparecendo vagarosamente da sala e da sua mente. Um dia, talvez, da sua vida.